O overemployed
é uma daquelas expressões que tem um significado em inglês até interessante mas
que, traduzido para o português, fica pior do que ruim: significa superempregado
ou excesso de emprego. Assim, à primeira vista seria até interessante, alguém
superempregado ou com excesso de emprego, mas na verdade, o significado no mundo real é que
alguém tem mais de um emprego e na imensa maioria das vezes é “simplesmente”
pelo fato de que somente um emprego (um salário) não é suficiente para proporcionar
uma renda digna de qualidade de vida.
Aqui no Brasil isto é mais comum
do que as estatísticas nos mostram. Na verdade, nem mostram muita coisa real já
que uma hora somos contabilizados com cerca de 64 milhões de trabalhadores
(IBGE) e outra hora, em pesquisa recente de uma empresa de consultoria, cerca
de 60% dos brasileiros teriam mais de um emprego. E se isto for verdade
teríamos que “descontar” os servidores públicos (são quase 13 milhões) que
podem, legalmente, ter mais de um emprego para saber quanto o setor privado não
remunera bem sua mão de obra.
O
overemployed, portanto, não é um luxo. Ao contrário, é o resultado de uma soma
bastante simples: baixos salários e alto custo de vida. É claro que tem um bom
número de pessoas que tem 2 (ou até 3) empregos para buscar melhorar seu padrão
de vida, ir além do que uma única renda poderia ser suficiente para um padrão financeiro
médio ou satisfatório de vida; não é uma crítica, é claro, todo mundo tem
liberdade de buscar uma forma (legal) de aumentar sua renda, seja por
necessidade básica seja por vontade de ganhar mais.
Nosso nível
de emprego e de sobreemprego é sempre complexo de entender do ponto de vista
dos números da economia. De um lado temos muita gente trabalhando com vínculo
(carteira assinada e setor público) e muitos trabalhadores por conta própria
(segundo o IBGE, em 31/12 do ano passado eram 26 milhões de empreendedores) e do
outro lado um índice de desemprego relativamente estável ou pelo menos não
alarmante, além de muitos beneficiários de programas de renda que não têm
emprego formal (a expressão aqui “de um lado” e “do outro lado” não é
discriminatória, é apenas uma divisão econômica entre renda proporcionada pelo
trabalho e a renda de caráter social,
proporcionada pelo poder público).
Acho, para
complicar os números, que tem muita gente no sobreemprego mesmo, principalmente
depois da chamada uberização em que muitos entraram por necessidade de renda
(ou de renda extra); hoje muita gente está dentro para complementar um extra,
sem que seja a fonte de renda única ou principal.
De uma
forma ou de outra, e para escapar de um termo cheio de conotação política (a
precarização), este é um resultado do custo de vida em que o salário já não
acompanha mais e na velocidade dos aumentos dos produtos e serviços de uma forma
geral. Antes do “sobreemprego individual” (conceito meu) tivemos o “sobreemprego
familiar” quando as mulheres casadas (e isto começou lá atrás, durante a II
Guerra Mundial) começaram a ingressar no mercado de trabalho, como forma de
autonomia e de reconhecimento de seus direitos e competências, sem dúvida
alguma, mas também uma forma de aumentar a renda familiar, que já algum tempo
envolveu também os filhos; se antigamente os pais trabalhavam, hoje os jovens
desde cedo estão participando do mercado de trabalho.
Já há
muito tempo o mundo do trabalho mudou, e a culpa não é nem do Uber nem da IA;
eles chegaram bem depois, embora mudaram e mudarão ainda muito a forma de se
trabalhar e, talvez mesmo, até o conceito de trabalho e de emprego.
Este fenômeno,
aliás, do overemployed não acontece somente no Brasil. Casualmente me deparei
com uma informação que está deixando a Bélgica preocupada. É que um país de
excelente qualidade de vida e de renda média bastante elevada já contabiliza 6%
de sua população ativa com dois empregos, e o motivo é o mesmo: aumento da
renda pessoal ou familiar. Fazer um “bico” parece que é algo universal. Mas, aqui
no Brasil a vida é “ralada”, como dizem alguns; aqui, “bico” já ganhou até nome
internacional, bem-vindo ao mundo do overempolyed.
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