terça-feira, 31 de março de 2026

Overemployed, “Lado B”

 

            O overemployed tem outro aspecto que precisa ser mais conhecido no Brasil, precisa de mais estatísticas e análises de mercado para entender seus efeitos nestes tempos modernos. Precisamos de uma pesquisa do IBGE para saber quem são os brasileiros que estão nesta situação de dois (ou mais) empregos e entender seu impacto na demanda social de qualificação social e na aposentadoria.

            A primeira demanda, da qualificação, poderá mostrar se este segundo emprego é realmente um “bico” ou alguma demanda privilegiando a experiência ou se o mercado de formação de mão de obra não está conseguindo assegurar uma qualificação suficiente para manter uma carreira profissional. Entendendo um pouco mais, o segundo emprego é aceito pelos empregadores pelo fato de não haver uma oferta de mão de obra com foco nas habilidades e competências necessárias, e por isto aceita-se mais da experiência de quem está trabalhando, com a expectativa de moldar o candidato no exercício da atividade? Precisamos entender a motivação do empregador em contratar alguém que está com uma sobrecarga de trabalho ao longo do dia, ou seja, a produtividade no segundo emprego pode não ser a mais eficiente.

            Na verdade, a questão é saber quem está no segundo emprego? Há áreas com maior demanda e oferta de vagas com maior ou menor condições de contratação? É um “bico” sem carteira assinada, sem direitos e vantagens trabalhistas?

            A pesquisa também nos alertaria se o segundo emprego seria, na verdade, uma segunda ocupação mas, diferente: o primeiro emprego seria aquele do trabalho assalariado e a segunda ocupação estaria no empreendedorismo, afinal, se o salário não está sendo suficiente, passaria a ser vendedor, representante comercial, entregador, motorista de Uber etc?

            E a longo prazo, como avaliar os impactos em termos de aposentadoria e como mensurar (desde já) os efeitos para poder adotar medidas compensatórias ou de prevenção para o Governo Federal na administração da Previdência Social.

            A alternativa do empreendedorismo não seria, formalmente falando, de um segundo emprego, mas tem as mesmas características do overemployed, a mesma ideia de aumentar a renda. Mas, infelizmente há uma outra ilusão que alguns dados nos oferecerem: de acordo com pesquisa realizada pelo Sebrae quase 70% dos empreendedores (formais ou não) conseguem um rendimento de apenas 2 salários-mínimos, pouco, muito pouco para o ideal da liberdade empresarial (segundo a mesma pesquisa, apenas 9%  – cerca de 2,5 milhões – conseguem uma renda superior a 5 salários-mínimos). Esta renda, que é reduzida para a maior parte dos empreendedores, não parece ser uma transição para uma único empre ou, em outras palavras, ter um emprego formal e aderir à ideia do empreendedorismo não é uma mudança de condição social (de renda), mas uma necessidade, que continua, que continuará.

            Vivemos em um mundo que combate a carga horária de trabalho e que tem seus relatos de experiências exitosas de contratos de trabalho com o máximo de 35 horas semanais. Enquanto isto nosso overemployed segue na contramão da história, o brasileiro está trabalhando mais, em dois empregos, com um custo individual e social muito pesado.


 

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