O tal do hidrogênio continua
a chamar muita atenção, aqui e lá fora. Muitas propostas, muitos projetos,
muitas promessas de um lado mas também algumas incertezas, alguns recuos e
algumas novidades diferentes, de outro lado.
É certo – pelo menos é
o que tudo indica – que o mundo chegará ao hidrogênio com toda a força e
vontade que estão prometendo, ainda que a promessa esteja demorando um pouco
mais para tornar-se realidade, principalmente no Brasil. A guerra dos Estados
Unidos no Irã talvez reforce ou venha a acelerar os projetos globais para
diminuir não somente a dependência do petróleo (e gás) mas principalmente para diminuir
a dependência de poucas fontes de fornecimento e/ou regiões de abastecimento
global. E considerando que o hidrogênio, pelo menos tecnicamente, pode ser
produzido em qualquer lugar, muitos países (especialmente europeus) estão de
olho nesta fonte de energia para, como diria a música, “chamar de sua”.
E não se pode esquecer
a movimentação gigantesca, compatível com seu porte, que a China vem fazendo. E
quando a próxima economia global dominante direciona seus esforços e recursos
para um lado, vale a pena ficar de olho, observar bem direitinho, e seguir os
passos; geralmente no mundo dos negócios vale aquele velho chavão, “siga o líder”.
Nessas turbulências
hidrogenadas, digamos, há notícias diversas para agradar e desagradar, a
depender do público que alguém esteja buscando ou também a depender do discurso
futurista com promessas de longo prazo e que provavelmente daqui 5-10 anos, o
prazo das promessas, ninguém mais se lembrará do que foi anunciado, sob pompas
e circunstâncias.
Vou citar duas notícias
bastante interessantes, do mês passado, dois polos bem opostos em termos de
investimentos, de estrutura produtiva e de resultados.
A primeira vem da
China, da empresa Hydromotion Technology que forneceu um motor movido à
hidrogênio para um caminhão (carga pesada, 49 toneladas) com autonomia de 1.000 km; o teste foi, na
verdade, de uma viagem de 2.100km com apenas uma parada para reabastecimento.
Deu tudo certo!
A outra notícia vem da
França, da empresa Pragma Industries que entrou em recuperação judicial depois
que seus projetos de bicicletas movidas a hidrogênio não prosperou; o projeto
foi iniciado em 2024 e a (pequena) empresa empregava 10 funcionários e tinha um
volume de negócios de cerca de um milhão de euros por ano.
São duas histórias
diferentes e dois contextos bem diferentes, é verdade, mas demonstram que o
hidrogênio ainda está em fase de experimentação assim como não é a solução para
tudo, pelo menos por enquanto. Como estas histórias, há exemplos positivos e
negativos de sobra e todos os dias os sites especializados em economia,
negócios e em hidrogênio nos contam coisas boas e outras menos boas. Apesar
desta inconstância na certeza absoluta de que tudo dará certo com o hidrogênio,
hoje não é possível chegar a esta conclusão, por mais que alguém queira ser
otimista, muito otimista. Mas, é uma solução que será implementada a
médio/longo prazo de forma global e que poderá repetir a mesma dinâmica dos
carros elétricos, com picos de otimismo e fases de monotonia na expansão do
mercado.
Aqui no Brasil, não faz
muito tempo, a líder de uma associação de promoção do hidrogênio fez um
comentário bastante lúcido em um evento realizado em Natal: de que estava
esperando ainda a primeira nota fiscal de venda de hidrogênio no Brasil. Pessimismo
em excesso ou realismo absoluto? Não sei, mas acredito que tenha sido a
esperança/expectativa de que este produto decole aqui em escala de mercado, não
apenas em testes laboratoriais ou pequenos sítios de produção em ambiente
controlado e quantidades experimentais.
Acredito no hidrogênio,
inclusive aqui no Brasil. Não de forma comercial em 2026 e muito provavelmente
também não em 2027; é bastante provável que tenhamos mais do que exemplos de
ônibus ou carros movidos à hidrogênio a curto prazo mas os desafios ainda são
estruturais, comerciais e econômicos e, desta vez não será uma redução ou
isenção de tributos que ativará o hidrogênio “made in RN”. Não desanimar é um
propósito, ser ufanista é um pouco exagerado. Concluindo, será necessário “oxigenar”
bem mais a cadeia produtiva de hidrogênio; inclusive aqui no RN.