terça-feira, 7 de abril de 2026

Gerenciando aeroportos

 

Gerenciar aeroporto deve ser muito bom, principalmente para quem gosta das áreas de atuação em Administração e em Economia. Todos os dias são milhares/milhões de pessoas que circulam por um espaço em busca de comodidade para pegar o voo ou sair de um avião o mais rapidamente possível para um novo destino. Esta breve introdução genérica é apenas para reforçar que não é fácil tomar conta de um equipamento urbano em que os interesses não são os mesmos para os distintos públicos com que a gestora do aeroporto trabalha: passageiros, empresas aéreas, Receita Federal, Polícia Federal, Anac e comércio/prestadores de serviço para as companhias aéreas e para o público (na maioria, passageiros).

Como toda grande empresa a Zurich Airport Brasil (leia-se aeroporto de Natal) tem continuamente avaliados seus serviços, com um monitoramento mensal e com a obrigação de publicar os resultados. Assim, a empresa suíça que “comprou” (arrendou) o Aeroporto divulga o resultado de pesquisa com os passageiros; não sei quantas pessoas são entrevistadas (a empresa não informa, assim como não informa a tal margem de erro da pesquisa) dentre a população que circula na área de embarque/desembarque; desconsiderando apenas aqueles que chegam/saem rapidamente para buscar/deixar alguém, são mais de 120 mil pessoas diferentes que tornam-se clientes do Natal Airport, por mês.

A pesquisa de desempenho divulgada tem quase 20 perguntas, e algumas chamam a atenção. Dentre elas, aquela que gera o melhor resultado no “Relatório de Indicadores de Qualidade de Serviço”, que é sobre a “Limpeza geral do aeroporto”: a nota, neste ciclo 2025/26 (agosto/25 até fevereiro/26) foi a melhor de todas, com avaliação atual de 4,65 (o máximo é 5), com uma ligeira melhora em relação ao ciclo passado, com na nota de 4,57.

Aqui há uma curiosidade bem, digamos... curiosa: a melhor avaliação é sobre a limpeza, quando a excelência do atendimento deveria ser a do serviço mais importante para os passageiros em um aeroporto, que não é a limpeza (é um fator crítico, claro, mas não é a essência da empresa administradora de um aeroporto).

As duas avalições essenciais são a “Facilidade de encontrar seu caminho no terminal” e a “Facilidade de acessar informações de voos”, afinal, quem está em um aeroporto nas áreas de embarque/desembarque deveria estar mais preocupado com seu voo e como achá-lo (além de achar o local das malas e a saída, para quem está desembarcando). Esta comunicação é primordial em todo aeroporto e aqui, no de Natal, e as notas mais recentes foram 4,60 e 4,49, respectivamente; aliás, não houve muita melhora em relação ao ciclo 2024/25, que teve 4,54 e 4,41, respectivamente.

Isto não significa, em absoluto, que a gestão apresente falhas ou haja alguma dificuldade operacional.

Pode ser simplesmente a ausência de uma boa comunicação ou de uma melhor forma de comunicação com o passageiro; talvez mais painéis ou uma informação mais interativa, atrativa e intensiva. Não sei qual é o nível de excelência nos aeroportos com maior escala de movimentação ou nos aeroportos internacionais e globais, mas tenho a sensação que a linguagem (comunicação) continua sendo muito tradicional, com aquela velha cena em que muitas pessoas ficam olhando para o painel de voos. Um clássico!

A Zurich Airport Brasil, empresa que administra o aeroporto em São Gonçalo do Amarante, tem larga experiência com outra unidade, em Florianópolis, e por lá os indicadores são um pouco melhores: 4,78 para “Facilidade de encontrar o caminho no terminal” e 4,69 para “Facilidade acessar informações de voos” (e por lá também é a limpeza geral o critério de melhor avaliação!). Estamos atrás deles, mas estamos bem nestes itens. Já para a pergunta sobre a wi-fi oficial no aeroporto, ficamos com 4,03 e eles, em Floripa, com 4,49: podemos melhorar aqui.

A Zurich tem realizado um bom trabalho para aumentar o número de voos no Natal Airport, isto talvez seja o mais relevante. Se no lado “ar” estão indo bem, os bons exemplos poderão  espelhar as ações no lado “terra”. Seria ótimo essa dobradinha de resultados (muito) positivos.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Club Med. Agora, eu vou!?

 

Li ontem a noticia de que o tradicionalíssimo “hotel” de férias, o Club Med, na verdade, o icônico Club Med, anunciou que implantará uma nova unidade no Brasil, aqui no Nordeste. Não será, infelizmente, um projeto no nosso RN.

Fiquei com pena, principalmente pelo fato de que é uma marca global conhecida por muitos turistas brasileiros e que um investimento destes atrairá certamente outras oportunidades nas imediações (apenas para ter ideia de quanto esta marca é conhecida pelos brasileiros, em uma semana de janeiro, em um dos Club Med de esqui na França, das 850 pessoas presentes cerca de 600 eram brasileiros! E, como bem ressaltou o presidente da empresa, os instrutores de esqui estão aprendendo português).

Mas, voltando ao Brasil. Neste ano a marca inaugurará uma unidade em Gramado. Um investimento de cerca de R$ 500 milhões, que será o mesmo valor do projeto para o Ceará. O projeto no Nordeste será para 2027 ou 2028 e terá 310 quartos, dos quais 30 ou 35 sob o label “Exclusive Collection”, ou seja, puro luxo!

O Club Med nasceu francês e hoje está presente em 26 países, inclusive no Brasil já há algum tempo. Por enquanto apenas estes dois projetos anunciados, mas considerando a possiblidade de expansão, a clientela brasileira (depois dos franceses quem mais frequente o Club Med são os brasileiros) e os atuais conflitos globais em regiões que recebem muitos turistas de luxo, quem sabe não poderia ter uma continuidade de novos projetos? Talvez apenas um sonho, mas não custa nada imaginar que seria possível.

Algumas características deste projeto são bem interessantes, se comparados ao nosso turismo potiguar: o novo empreendimento ficará a cerca de 1h15 minutos de Fortaleza (portanto, do aeroporto) e terá um foco bem especifico para atrair nova clientela: será, como disse o presidente da empresa, o “primeiro village de kitesurf”. Ora, me lembrei logo de São Miguel do Gostoso, que fica um pouquinho mais longe do 1h15 do aeroporto mas é um lugar excelente para a prática de kitesurf! Talvez não houvesse espaço beira-mar para um projeto grandioso ou o custo de aquisição de novas áreas estivesse acima dos preços médios de outras regiões; talvez.

O Club Med não explicou a razão de sua escolha, e também o jornal o Globo, que fez a entrevista com o presidente, não perguntou.

O icônico “clube” foi quem inventou o conceito do all inclusive, aquela ideia de que você paga pela hospedagem e todas as refeições estão incluídas. E foi quem inventou também a ideia de ter sempre uma série de atividades para fazer enquanto você passa a semana com eles. Em outras palavras, tratamento VIP, completo, apenas com a preocupação em aproveitar e se divertir. Show! Não faz muito tempo assisti um documentário (francês) que contava a trajetória da criação e da ousadia da época; foi uma mudança significativa no mercado e agora, apesar de algumas turbulências, ainda continuam a ser uma referência no mercado.

Sempre tive vontade de ir a um Club Med, mas não para esquiar, não é muito “minha montanha” (eu ia dizer, “minha praia”...), mas para desfrutar de uma semana de qualidade de atendimento, de atividades e de gastronomia. Nunca fui, mas ainda não desisti de meu projeto pessoal.

Quem sabe, com o Club Med perto de casa poderei realizar esta vontade. Pena que não será aqui no nosso RN.

domingo, 5 de abril de 2026

Data center no RN: o novo futuro?

 

A Tribuna do Norte deste domingo traz uma reportagem consistente sobre o debate da legislação no RN para a atração de investimentos em data centers, com a avaliação de representantes do setor empresarial que traçam uma expectativa extremamente promissora para o ideal apresentado: seguindo o plano projetado pelo setor produtivo, na operação dos data centers teríamos mais de 1.300 mil empregos diretos e ainda outros 13 mil durante o período de construção. Quase, acredito, estaríamos no êxtase de todo projeto macroeconômico pois estaríamos bem perto do chamado “pleno emprego” (não significa que não haverá pessoas desempregadas, mas sim que sua taxa será bastante reduzida e que estiver em busca de emprego não teria dificuldade em ser contratado).

Esse ideal dos data centers, no entanto, não é para agora, imediatamente. E por alguns motivos: um deles, e é o foco da matéria no jornal, é a questão da regulamentação que ainda está em discussão com/no Idema para que seja aprovada uma nova formatação da normatização de operacionalização e de licenciamento ambiental, este último tema sempre complexo para grandes projetos; há também a questão da captação dos investidores, pois somente a legislação existente não garante que haverá empresas interessadas e, não podemos deixar para o final, a questão da localização dos projetos.

A localização parece ser, entendo, um gargalo essencial de captação do investimento. É que data center é por definição um grande consumidor de energia e, eventualmente, de água. Para a energia, embora o RN seja um grande produtor, é necessário que cada data center esteja próximo à linhas de transmissão, ou seja, não há como instalá-los em qualquer ponto geográfico em que tenha um poste passando por perto. A água é (ou era) um grande problema, pois os projetos iniciais exigiam um elevado consumo de água para refrigerar os equipamentos e o seu fornecimento significa perda de água principalmente em regiões com menor recursos hídricos.

Mas, no mês passado a Google deu uma grande esperança para todos, em especial aqui para nós, no Nordeste, no semiárido: a empresa anunciou, lá nos Estados Unidos (no Texas) um projeto que pretende utilizar pouca água, implantando um outro sistema de resfriamento  (a ar) que dispensa o uso da água. Isto é sensacional! A solução, que já se anunciava desde o ano passado como possível, parece caminhar para um resultado concreto em um grande projeto de uma grande empresa.

Vale lembrar que aqui no RN a questão da água é sempre um fator sensível: nesta semana o Governo do Estado decretou emergência em 166 municípios (apenas Natal “escapou”) por falta ou por deficiência de reserva de água. Já pensou em conversar sobre data center na condição de uma grande consumidora de água em um Estado que assume oficialmente que temos pouca água? Seria um contrassenso, claro.

A solução para atrair data centers para o RN passa pela legislação que deve ser discutida tecnicamente e apreciada o mais breve possível. Mas, a discussão não pode ser apenas técnica, deve ser social e econômica. Do ponto de vista econômico é até mais fácil, basta oferecer incentivos fiscais e assegurar que o licenciamento será efetivado de forma eficiente (de acordo com as regras) que ficará menos difícil encontrar investidores interessados. E do ponto de vista social, para não afetar o consumo de água no RN, talvez as regras possam impor alguma limitação nos projetos com resfriamento a água: captar água do mar e promover sua dessalinização, garantir uma eventual compensação do uso da água com a captação de novos poços ou a implantação de dessalinizadores ou ainda buscar formas de implantar projetos com reuso de água.

No mundo o tema data center tem interessado vários países e aqui no Brasil já temos projetos indicados (assegurados) para o Nordeste. Mas, ainda nenhum no RN. Pode ser um novo futuro; não acontecerá em um passe de mágica, mas o setor produtivo tem feito sua parte e trabalhado para que tenhamos estes projetos novos, já a partir de 2027: 1.330 empregos já estão na fila de espera!


sábado, 4 de abril de 2026

Orla em obras

 

Algumas cidades têm o privilégio de ter uma orla urbana acessível e com praias (leia-se banho de mar e faixa de areia) agradáveis. A vantagem é dupla: o lado geralmente mais explorado no noticiário é o aspecto turístico, o “convite” permanente que a praia oferece para os turistas que chegam em busca de paisagens diferenciadas. Mas o lado local também deve ser prestigiado por seu aspecto social: quem mora nas cidades é quem deveria melhor ter a oportunidade de desfrutar das vantagens da orla.

Não se trata, certamente, de criar rivalidades entre os locais e os visitantes, seria algo muito besta e muito inútil, as praias urbanas não são exclusividades de quem mora na cidade nem de quem sai de casa para gastar dinheiro na minha cidade. Há espaço para todos e as políticas públicas devem beneficiar a todos, indistintamente.

Em Natal, para ficar no exemplo mais próximo, temos uma orla urbana privilegiada. Na verdade, diria, temos 3 orlas urbanas: aquela mais “antiga” e antigamente mais central, da praia de Areia Preta até a praia do Forte, aquela mais turisticamente conhecida, em Ponta Negra, e aquela faixa de areia que parece um território estrangeiro, a tal da via Costeira. Duas delas oferecem boa infraestrutura para turistas e moradores, com uma boa oferta de serviços e, mais importante, com acesso fácil e barato (ônibus urbano) para todo mundo; a outra, na via Costeira, como já comentei há muito tempo (e parece que nada mudou), está distante da população local e no período em que recebíamos muitos turistas estrangeiros era mais fácil encontrar passaportes do que carteiras de identidade na praia.

Nos espaços mais frequentados pela população local tenho uma sensação de que a orla está permanentemente em obra. Há um aspecto interessante, aquele de que se há obras é para poder melhorar o acesso ao público mas, não é nada interessante que os serviços demorem tanto tempo criando dificuldade de acesso, gerando algum risco de acidente e eliminando o acesso e a visualização da bela paisagem natural. Obras, reitero, são importantes mas devem ser objetivas e atrapalhar o menos possível.

Na faixa da praia urbana, na chamada praia do Meio, implantaram vários quiosques em um calçadão em um projeto de urbanização que particularmente acho que poderia ter tido outra perspectiva: apesar de oferecer os serviços à população que frequenta a praia, retirou a vista da praia, a paisagem “perdeu-se” para quem passa na rua e na calçada. É claro que temos que ter uma urbanização adequada nas faixas de praias urbanas, mas além dos serviços e comodidades oferecidos, a paisagem é um rico patrimônio que deve ser preservado.

Ali, as obras ainda continuam. Estamos apenas iniciando o quarto mês do ano, dá tempo de concluir tudo para a alta estação, mas seria ideal terminar o quanto antes para que o turista que venha passear aqui em agosto, setembro ou outubro possa voltar para casa e fazer a propaganda da praia urbanizada e de uma bela paisagem, natural e criada; e não fazer comentários sobre obras que atrapalham a circulação e a possibilidade de desfrutar da paisagem.

É curioso notar que durante muitos anos já se realizaram alguns projetos de requalificação daquele espaço entre a praia dos Artistas e a do Forte. O trânsito mudou algumas vezes, o tamanho das calçadas também, foram construídos quiosques, criaram-se praças e quadras esportivas, melhoraram o acesso ao Forte etc. Muitas mudanças, mas a ocupação habitacional (casas, prédios, hotéis etc.) continua praticamente a mesma, ou até mesmo em decadência. Uma curiosidade é que apesar de todas as mudanças e projetos o setor empresarial na “rua da praia” não mudou de forma consistente: nenhum novo hotel ou pousada com projeto impactante, nada de novos restaurantes ou bares da moda, redução das lojas de artesanato (um dos projetos, grande, está fechado há bastante tempo), nenhum lançamento imobiliário etc. Até parece que é uma área que não é de interesse dos investidores.

O que já foi um espaço nobre e privilegiado “esqueceu” de valorizar-se ao longo dos anos. Não se trata de buscar culpados, mas de buscar soluções. Enquanto a praia estiver por lá e a paisagem continuar encantadora (se você não percebeu, com licença, estou sendo irônico...) haverá esperança. Eu continuo a acreditar.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ovo de Páscoa e Mounjaro

 

Se você foi aos aupermercados nestes dias e teve a curiosidade de passar pelo setor de ovos de Páscoa deve ter se espantado com os preços muito elevados, quase inacessíveis para a maoria das pessoas, mas também com a redução de tempo de espaço. Primeiramente de tempo, pois os ovos de Páscoa começavam a aparecer logo após o Carnaval, o que não aconteceu este ano e, em seguida, de espaço, bem menor do que no ano passado e sem as “demonstradoras” que ficavam fazendo a propaganda das marcas e variedades.

Foi bem diferente este ano, uma queda sensível nas vendas.

E não tem nada a ver com muitas notícias que vimos nas últimas semanas dos efeitos do Mounjaro, Ozempik e outros remédios milagrosos que estão mudando o perfil de consumo e moldando o apetite por alimentos em geral e, especialmente aqueles que são considerados como vilões para a saúde humana, dentre eles os tão deliciososo chocolates.

Não há relação direta entre dieta e menor quantidade de ovos de Páscoa à venda, ainda que alguém possa querer fazer esta associação; não acredito muito.

O que me faz acreditar que o motivo é diferente é outra regra de mercado, aquela famosa da oferta e da demanda. Mas, aqui, não é que haja baixa demanda de ovos de chocolates, mas é que a demanda seria (como foi) muito impactada com o efeito da oferta, visto que os preços – assim como estão expostos vários ovos de chocolate nos supermercados – estão nas alturas.

O noticiário internacional foi vasto ano passado sobre o preço da matéria-prima, o cacau: os preços elevaram-se bastante nos mercados internacionais e, por mais que possa surpreender alguém o preço do cacau (uma verdadeira commodity) é ditado em dólar, com base na produção e nos estoques mundiais. O Brasil produz cacau mas, a cotação não depende da gente, é fruto da produção e oferta de países africanos e já há algum tempo os especialistas nestes mercados alertavam para a alta de preço e até mesmo para a possibilidade de faltar cacau no mundo! A previsão catastrófica não chegou, mas os efeitos no preço chegaram bem rapidinho.

Aqui temos outro agravante, a inflação e o custo de vida. Vale lembrar que ovo de chocolate sempre foi caro e quando comparamos o quilo do ovo de chocolate com o quilo de um chocolate em barra logo veremos que é 2 a 3 vezes mais caro comprar um ovo de Páscoa. Nos últimos anos as indústrias tentaram meio que maquiar esta ideia e passaram a produzir muitos ovos de chocolate com brinquedos inseridos na embalagem, uma maneira de “justificar” o preço maior. Neste ano não deu certo. Aliás, a indústria mudou muito o perfil e a boa parte dos ovos de chocoate vendidos tem apenas... chocolate e nada de brinquedo; e mesmo assim os preços estão fortes.

Quem primeiro percebeu que este ano não seria igual aos anteriores foram os supermercados que reduziram suas encomendas, enxugando os custos e as possibilidades de perdas; as indústrias também pois parece que dispensaram as “demonstradoras” que ficam fazendo a propaganda para quem chegasse por perto. Um exemplo que me chamou a atenção foi o do Nordestão, um espaço tão pequeno, nem parecia anos anteriores.

A coisa está tão séria que uma notícia bem curiosa espalhou-se mundo afora, a do roubo na Europa de um caminhão de chocolates Kit Kat; e não foi uma carga pequena, pela contrário, foram roubadas mais de 400 mil barras que alcançariam um preço de venda ao consumidor em torno dos R$ 3 milhões. Nunca imaginei que eu poderia estar dirigindo meu carro ao lado de um caminhão de chocolates com uma carga de R$ 3 milhões! Parece engraçado imaginar que em breve teremos escolta armada, a exemplo dos cigarros e bebidas caras, para chocolate...

O resultado deste momento das compras de ovos de chocolate? Estamos perdendo o poder de compra, não estamos conseguindo acompanhar os aumentos das indústrias que também não estão conseguindo reduzir seus custos de produção.

A solução? A mais simples seria fazer igual aos combustíveis e reduzir os impostos; a outra, distribuir Mounjaro para todos...


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Hidrogênio. Bicicletas e ônibus

 

O tal do hidrogênio continua a chamar muita atenção, aqui e lá fora. Muitas propostas, muitos projetos, muitas promessas de um lado mas também algumas incertezas, alguns recuos e algumas novidades diferentes, de outro lado.

É certo – pelo menos é o que tudo indica – que o mundo chegará ao hidrogênio com toda a força e vontade que estão prometendo, ainda que a promessa esteja demorando um pouco mais para tornar-se realidade, principalmente no Brasil. A guerra dos Estados Unidos no Irã talvez reforce ou venha a acelerar os projetos globais para diminuir não somente a dependência do petróleo (e gás) mas principalmente para diminuir a dependência de poucas fontes de fornecimento e/ou regiões de abastecimento global. E considerando que o hidrogênio, pelo menos tecnicamente, pode ser produzido em qualquer lugar, muitos países (especialmente europeus) estão de olho nesta fonte de energia para, como diria a música, “chamar de sua”.

E não se pode esquecer a movimentação gigantesca, compatível com seu porte, que a China vem fazendo. E quando a próxima economia global dominante direciona seus esforços e recursos para um lado, vale a pena ficar de olho, observar bem direitinho, e seguir os passos; geralmente no mundo dos negócios vale aquele velho chavão, “siga o líder”.

Nessas turbulências hidrogenadas, digamos, há notícias diversas para agradar e desagradar, a depender do público que alguém esteja buscando ou também a depender do discurso futurista com promessas de longo prazo e que provavelmente daqui 5-10 anos, o prazo das promessas, ninguém mais se lembrará do que foi anunciado, sob pompas e circunstâncias.

Vou citar duas notícias bastante interessantes, do mês passado, dois polos bem opostos em termos de investimentos, de estrutura produtiva e de resultados.

A primeira vem da China, da empresa Hydromotion Technology que forneceu um motor movido à hidrogênio para um caminhão (carga pesada, 49 toneladas)  com autonomia de 1.000 km; o teste foi, na verdade, de uma viagem de 2.100km com apenas uma parada para reabastecimento. Deu tudo certo!

A outra notícia vem da França, da empresa Pragma Industries que entrou em recuperação judicial depois que seus projetos de bicicletas movidas a hidrogênio não prosperou; o projeto foi iniciado em 2024 e a (pequena) empresa empregava 10 funcionários e tinha um volume de negócios de cerca de um milhão de euros por ano.

São duas histórias diferentes e dois contextos bem diferentes, é verdade, mas demonstram que o hidrogênio ainda está em fase de experimentação assim como não é a solução para tudo, pelo menos por enquanto. Como estas histórias, há exemplos positivos e negativos de sobra e todos os dias os sites especializados em economia, negócios e em hidrogênio nos contam coisas boas e outras menos boas. Apesar desta inconstância na certeza absoluta de que tudo dará certo com o hidrogênio, hoje não é possível chegar a esta conclusão, por mais que alguém queira ser otimista, muito otimista. Mas, é uma solução que será implementada a médio/longo prazo de forma global e que poderá repetir a mesma dinâmica dos carros elétricos, com picos de otimismo e fases de monotonia na expansão do mercado.

Aqui no Brasil, não faz muito tempo, a líder de uma associação de promoção do hidrogênio fez um comentário bastante lúcido em um evento realizado em Natal: de que estava esperando ainda a primeira nota fiscal de venda de hidrogênio no Brasil. Pessimismo em excesso ou realismo absoluto? Não sei, mas acredito que tenha sido a esperança/expectativa de que este produto decole aqui em escala de mercado, não apenas em testes laboratoriais ou pequenos sítios de produção em ambiente controlado e quantidades experimentais.

Acredito no hidrogênio, inclusive aqui no Brasil. Não de forma comercial em 2026 e muito provavelmente também não em 2027; é bastante provável que tenhamos mais do que exemplos de ônibus ou carros movidos à hidrogênio a curto prazo mas os desafios ainda são estruturais, comerciais e econômicos e, desta vez não será uma redução ou isenção de tributos que ativará o hidrogênio “made in RN”. Não desanimar é um propósito, ser ufanista é um pouco exagerado. Concluindo, será necessário “oxigenar” bem mais a cadeia produtiva de hidrogênio; inclusive aqui no RN.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Lixo e dinheiro, tudo a ver

 A Braseco, a empresa que detém o aterro sanitário em Ceará-Mirim e que atende várias prefeituras da Grande Natal, dentre elas a Capital, publicou hoje o seu resultado empresarial do ano de 2025. E podemos dizer que foi um bom resultado, um lucro líquido de R$ 26,1 milhões; e mais ainda, podemos dizer que foi um ótimo resultado, se comparado com o ano anterior, visto que em 2024 houve um prejuízo de R$ 9,4 milhões.

O lixo, como sabemos, é um bom negócio e em todos os sentidos. Para o cidadão, aquele que paga a taxa de lixo (e também quem não paga nada), é um ótimo negócio pois não precisa se preocupar muito com o que acontece com seu lixo, de forma geral basta colocar em um saco plástico e depositar na lixeira do condomínio ou deixar na calçada, esperando que o caminhão do lixo venha recolher o material. E, tanto faz se você é um grande “produtor” de lixo ou um pequeno, a taxa de lixo será a mesma e, ainda que você queira ser 110% ultraecologista e fazer compostagem do lixo orgânico e triagem dos recicláveis para doação, o preço pelo serviço público é comparativamente o mesmo (a taxa de lixo varia, na verdade, em função da área do imóvel).

Para as Prefeituras, quando o serviço funciona bem, é um ótimo cartão de visitas para a população. Bem que nas cidades de médio e grande portes é sempre difícil alcançar esta excelência no serviço, tem sempre muito lixo a recolher e é sempre um problema crônico quando as chuvas chegam com força. Nesta hora, sempre nesta hora, o lixo é um problema e uma promessa, a de que o serviço será reforçado e que vai melhorar.

Mas, bom negócio mesmo é para as empresas que fazem a coleta e principalmente para as empresas que administram os aterros.

A Braseco que o diga. Afinal, como ela mesma divulgou, o custo dos serviços prestados foi praticamente o mesmo em 2024 e 2025, de R$ 21,3 milhões. Mas, a receita foi bem diferente nestes dois anos: em 2024 a Braseco recebeu R$ 23,7 milhões pelo serviço prestado e no ano seguinte, em 2025, recebeu R$ 25,1 milhões. Um aumento que não foi, na verdade, muito expressivo, de cerca de 6% mas que demosntra que o negócio é viável: a empresa conseguiu controlar seus custos e conseguiu aumentar sua receita em patamar acima da inflação.

Não consegui avaliar, com os resultados básicos do balanço, se o aumento da receita foi em função do aumento da coleta de lixo nas mesmas cidades ou se algum novo cliente entrou na carteira da empresa; ou, e eu acho mais provável, deve ter sido o aumento da tarifa cobrada às prefeituras.

A produção de lixo em Natal, no Brasil e no mundo é um problema grave e às vezes complexo. Em várias cidades do mundo, principalmente nos países mais ricos economicamente, a situação da coleta de lixo é geralmente bem estruturada e atende às demandas locais; em geral, também por lá, a destinação consegue ser bem administrada do ponto de vista ambiental, que é a maior preocupação, do saber-fazer com o lixo coletado para evitar contaminação no solo, poluição no ar e, cada vez mais, uma destinação e reaproveitamento de materiais.

Aqui no nosso RN quando circulamos por algumas estradas encontramos ainda lixões, os chamados a “céu aberto”, um verdadeiro “depósito” onde os caminhões despejam a coleta diária, sem qualquer triagem; algumas vezes em áreas muradas com o pomposo título pintado na parede de “aterro do município de xxx”, mas igualmente apenas um local onde joga-se tudo, literalmente, fora.

Há muito tempo escutamos a necessidade de cuidarmos do meio ambiente com ações individuais e coletivas. Acho que melhoramos muito neste quesito, se comparamos com o início do anos 2000 (nem ouso mencionar a comparação com as décadas do século passado!). Mas, ainda falta mais profissionalização da ação pública e da ação privada. E acredito que quanto mais o lixo for tratado como um negócio rentável, ou seja, quanto mais reforçados os incentivos ao setor privado, mais a administração pública simplificará os esforços para um bom resultado, e isto significa que é um bom resultado no qual ganhamos todos; inclusive a Braseco, mas poderia ser qualquer outra empresa, desde que resolvido o problema!

terça-feira, 31 de março de 2026

Overemployed, “Lado B”

 

            O overemployed tem outro aspecto que precisa ser mais conhecido no Brasil, precisa de mais estatísticas e análises de mercado para entender seus efeitos nestes tempos modernos. Precisamos de uma pesquisa do IBGE para saber quem são os brasileiros que estão nesta situação de dois (ou mais) empregos e entender seu impacto na demanda social de qualificação social e na aposentadoria.

            A primeira demanda, da qualificação, poderá mostrar se este segundo emprego é realmente um “bico” ou alguma demanda privilegiando a experiência ou se o mercado de formação de mão de obra não está conseguindo assegurar uma qualificação suficiente para manter uma carreira profissional. Entendendo um pouco mais, o segundo emprego é aceito pelos empregadores pelo fato de não haver uma oferta de mão de obra com foco nas habilidades e competências necessárias, e por isto aceita-se mais da experiência de quem está trabalhando, com a expectativa de moldar o candidato no exercício da atividade? Precisamos entender a motivação do empregador em contratar alguém que está com uma sobrecarga de trabalho ao longo do dia, ou seja, a produtividade no segundo emprego pode não ser a mais eficiente.

            Na verdade, a questão é saber quem está no segundo emprego? Há áreas com maior demanda e oferta de vagas com maior ou menor condições de contratação? É um “bico” sem carteira assinada, sem direitos e vantagens trabalhistas?

            A pesquisa também nos alertaria se o segundo emprego seria, na verdade, uma segunda ocupação mas, diferente: o primeiro emprego seria aquele do trabalho assalariado e a segunda ocupação estaria no empreendedorismo, afinal, se o salário não está sendo suficiente, passaria a ser vendedor, representante comercial, entregador, motorista de Uber etc?

            E a longo prazo, como avaliar os impactos em termos de aposentadoria e como mensurar (desde já) os efeitos para poder adotar medidas compensatórias ou de prevenção para o Governo Federal na administração da Previdência Social.

            A alternativa do empreendedorismo não seria, formalmente falando, de um segundo emprego, mas tem as mesmas características do overemployed, a mesma ideia de aumentar a renda. Mas, infelizmente há uma outra ilusão que alguns dados nos oferecerem: de acordo com pesquisa realizada pelo Sebrae quase 70% dos empreendedores (formais ou não) conseguem um rendimento de apenas 2 salários-mínimos, pouco, muito pouco para o ideal da liberdade empresarial (segundo a mesma pesquisa, apenas 9%  – cerca de 2,5 milhões – conseguem uma renda superior a 5 salários-mínimos). Esta renda, que é reduzida para a maior parte dos empreendedores, não parece ser uma transição para uma único empre ou, em outras palavras, ter um emprego formal e aderir à ideia do empreendedorismo não é uma mudança de condição social (de renda), mas uma necessidade, que continua, que continuará.

            Vivemos em um mundo que combate a carga horária de trabalho e que tem seus relatos de experiências exitosas de contratos de trabalho com o máximo de 35 horas semanais. Enquanto isto nosso overemployed segue na contramão da história, o brasileiro está trabalhando mais, em dois empregos, com um custo individual e social muito pesado.


 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Overemployed, “Lado A”

 

               O overemployed é uma daquelas expressões que tem um significado em inglês até interessante mas que, traduzido para o português, fica pior do que ruim: significa superempregado ou excesso de emprego. Assim, à primeira vista seria até interessante, alguém superempregado ou com excesso de emprego, mas na  verdade, o significado no mundo real é que alguém tem mais de um emprego e na imensa maioria das vezes é “simplesmente” pelo fato de que somente um emprego (um salário) não é suficiente para proporcionar uma renda digna de qualidade de vida.

               Aqui no Brasil isto é mais comum do que as estatísticas nos mostram. Na verdade, nem mostram muita coisa real já que uma hora somos contabilizados com cerca de 64 milhões de trabalhadores (IBGE) e outra hora, em pesquisa recente de uma empresa de consultoria, cerca de 60% dos brasileiros teriam mais de um emprego. E se isto for verdade teríamos que “descontar” os servidores públicos (são quase 13 milhões) que podem, legalmente, ter mais de um emprego para saber quanto o setor privado não remunera bem sua mão de obra.

               O overemployed, portanto, não é um luxo. Ao contrário, é o resultado de uma soma bastante simples: baixos salários e alto custo de vida. É claro que tem um bom número de pessoas que tem 2 (ou até 3) empregos para buscar melhorar seu padrão de vida, ir além do que uma única renda poderia ser suficiente para um padrão financeiro médio ou satisfatório de vida; não é uma crítica, é claro, todo mundo tem liberdade de buscar uma forma (legal) de aumentar sua renda, seja por necessidade básica seja por vontade de ganhar mais.

               Nosso nível de emprego e de sobreemprego é sempre complexo de entender do ponto de vista dos números da economia. De um lado temos muita gente trabalhando com vínculo (carteira assinada e setor público) e muitos trabalhadores por conta própria (segundo o IBGE, em 31/12 do ano passado eram 26 milhões de empreendedores) e do outro lado um índice de desemprego relativamente estável ou pelo menos não alarmante, além de muitos beneficiários de programas de renda que não têm emprego formal (a expressão aqui “de um lado” e “do outro lado” não é discriminatória, é apenas uma divisão econômica entre renda proporcionada pelo trabalho e  a renda de caráter social, proporcionada pelo poder público).

               Acho, para complicar os números, que tem muita gente no sobreemprego mesmo, principalmente depois da chamada uberização em que muitos entraram por necessidade de renda (ou de renda extra); hoje muita gente está dentro para complementar um extra, sem que seja a fonte de renda única ou principal.

               De uma forma ou de outra, e para escapar de um termo cheio de conotação política (a precarização), este é um resultado do custo de vida em que o salário já não acompanha mais e na velocidade dos aumentos dos produtos e serviços de uma forma geral. Antes do “sobreemprego individual” (conceito meu) tivemos o “sobreemprego familiar” quando as mulheres casadas (e isto começou lá atrás, durante a II Guerra Mundial) começaram a ingressar no mercado de trabalho, como forma de autonomia e de reconhecimento de seus direitos e competências, sem dúvida alguma, mas também uma forma de aumentar a renda familiar, que já algum tempo envolveu também os filhos; se antigamente os pais trabalhavam, hoje os jovens desde cedo estão participando do mercado de trabalho.

               Já há muito tempo o mundo do trabalho mudou, e a culpa não é nem do Uber nem da IA; eles chegaram bem depois, embora mudaram e mudarão ainda muito a forma de se trabalhar e, talvez mesmo, até o conceito de trabalho e de emprego.

               Este fenômeno, aliás, do overemployed não acontece somente no Brasil. Casualmente me deparei com uma informação que está deixando a Bélgica preocupada. É que um país de excelente qualidade de vida e de renda média bastante elevada já contabiliza 6% de sua população ativa com dois empregos, e o motivo é o mesmo: aumento da renda pessoal ou familiar. Fazer um “bico” parece que é algo universal. Mas, aqui no Brasil a vida é “ralada”, como dizem alguns; aqui, “bico” já ganhou até nome internacional, bem-vindo ao mundo do overempolyed.

 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

E se não houvesse Carnaval?

Pergunta meramente retórica, visto que para alguns seria o equivalente ao fim do mundo. Mas, pergunto “e se não houvesse Carnaval” no sentido econômico do evento, dos milhões que são gastos anualmente por entidades e associações promotoras dos milhares de eventos em todo o País, dos incentivos públicos distribuídos anualmente, do patrocínio das empresas privadas e, claro, do investimento (ou gasto) que cada um faz durante os 30 dias do Carnaval. Sim, 30 dias, pois tem o antes, o durante e o depois e ainda tem o além-do-depois para aqueles que não se cansam nunca e se divertem como sempre.

Nestes dias todas as notícias irão para os blocos e os eventos, as estruturas e a participação popular, os hotéis e os Carnavais diferentes-diferenciados que se espalham em praticamente todas as cidades. Difícil, até, imaginar uma cidade em que não haja nenhuma festividade ou pelo menos uma animação em um clube, restaurante ou bar. Enfim, festa para todos.

Passados estes dias começará a safra dos números: foliões, turistas e os milhões, ou melhor, as centenas de milhões que os brasileiros gastaram nestes dias. É muita coisa! A cada estatística desta fico sempre pensando em pelo menos duas questões: quanto isto representa em relação ao PIB do Brasil (e questão subsidiária, será que daria o PIB de algum país?! Acho que sim) e para onde iria todo este dinheiro que o folião brasileiro gastou no Carnaval se não houvesse esta festa?

É mera questão retórica, como mencionei, pois o valor gasto no Carnaval movimenta toda a economia nacional e afeta bastante alguns segmentos que têm este período o faturamento superior a 2, 3 e eventualmente 6 meses do ano. Não dá para imaginar que este dinheiro ficaria na conta bancária de cada um, mas dá para imaginar que poderia ser destinado para outras atividades – tão importantes quanto o lazer – como educação, saúde, casa própria etc.

É claro que não sou contra o Carnaval, para não parecer que trata-se de mera crítica quanto aos valores gastos. Sou a favor e acho que a iniciativa privada deve gastar mais, sempre mais, e o poder público, menos, apenas quando a condição da festa pública não permite alavancar recursos, como acontece com a festa em Natal. Já fui algumas vezes acompanhar os desfiles na Ribeira e sempre volto triste e animado: triste ao ver quanto é simples e quanto há pouco investimento, além de uma sensação de repetição, e animado ao ver algumas pessoas se dedicando de corpo e alma ao que fazem e ver que tem um bom público dispostos a festejar a data.

Não sei quanto “vale” o Carnaval de Natal no sentido da metodologia aplicada, aquela que nos informa o impacto financeiro e econômico na cidade. Estou me referindo ao desfile oficial, aquele que tem pouco incentivo, que os blocos têm poucos adereços e carros alegóricos e que o comércio dominante está nas pequenas barracas e caixas de isopor, entre meses e a fumaça dos churrasquinhos; e que, guardada as devidas proporções, é tão impactante para o pequeno comerciante quanto é para os grandes empresários que investem pesado em barracas, seguranças, pessoal etc.

E se não houvesse desfile do Carnaval em Natal? Seria ruim, muito ruim, para a cidade e seus carnavalescos. Falta menos de uma semana para os desfiles oficiais e ainda não vi a programação na Ribeira; será que não haverá Carnaval este ano?! Se haverá, hora de divulgar, a começar pela programação.

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sábado, 22 de fevereiro de 2025

Ironia: gramado artificial x inteligência humana (humor)

Em tempos de IA ou inteligência artificial um importantíssimo debate nacional tem sido as reclamação contra o gramado artificial nos campos de futebol. A nossa inteligência humana esportiva já identificou o problema artificial que atrapalha os jogos. É um bom sinal. A próxima etapa é identificar o que falta para o futebol brasileiro conquistar uma Copa do Mundo, e preferencialmente já poderia começar com a próxima, de 2026. Se já temos inteligência para combater o gramado artificial, com um pouco mais saberemos como combater os adversários?


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Mercado Livre. E lucrativo

 ode ser que você tenha outras preferências e nunca tenha comprado no Mercado Livre, mas para quem é adepto de compras eletrônicas sabe muito bem o que é Mercado Livre e o papel que tem no mercado brasileiro e a credibilidade que alcançou nestes últimos anos. É a maior empresa da América Latina em termos de vendas de produtos on line e com aquela velha contradição meramente aparente, não produz nada e vende de tudo quase um pouco mas, onde ganha dinheiro mesmo é na diversidade dos itens que vendem pouco e nos poucos itens que vendem muito. Nada de especial, claro, foi assim com as chamadas “lojas de departamento” e sempre foi assim com os supermercados.

Mercado Livre é um caso de sucesso espetacular que se especializou em ser eficiente na entrega das mercadorias, de assegurar um prazo bastante razoável e de não ter problemas nos pagamentos on line, sem fraudes e sem vazamento de informações. Os investimentos não param no mundo virtual já que detém vários galpões em pontos estratégicos no Brasil, inclusive um gigantesco centro de distribuição em Recife que gera milhares de empregos.

É apenas um exemplo destes monstros do comércio eletrônico como são Amazon, Shein, Temu etc. É a real força do comércio eletrônico que parece não parar de crescer e de concorrer com as lojas físicas. Considero que hoje não deve ter mais ninguém achando que seria apenas um modismo ou um efeito passageiro, que as pessoas continuariam – eternamente – a preferir comprar na loja para experimentar o produto e ter a sensação de conversar e perguntar algo aos vendedores. Isto foi no século passado e todas as grandes lojas brasileiras já entenderam qual é o caminho necessário para sobreviver assim como aquelas empresas lá na outra ponta do mercado, as pequenas, já perceberam que seria uma excelente oportunidade para conquistar clientes, que estejam perto ou longe, pouco importa.

A notícia de semana do Mercado Livre foi o lucro anunciado para o último trimestre do ano passado: 639 milhões de dólares e se você acha que é um bom valor, imagine então que este lucro foi 287% maior do que no mesmo período de 2023! A receita líquida da empresa foi de US 6,1 bilhões entre outubro e dezembro de 2024, também maior do que aquela de 2023. É algo espetacular no mundo dos negócios de uma empresa que continuou a investir acreditando que o investimento traria mais receita e mais lucro. E acertou.

E a gente imaginar o impacto da “taxa das blusinhas” ou da variação cambial ou do aumento do ICMS nas compras eletrônicas parece que nada disso afetou o mercado nem a empresa Mercado Livre. O poder público às vezes tem tendência a imaginar que aumentar impostos ou taxas pode frear o lucro e gerar mais concorrência, uma forma de proteção do consumidor e das empresas; na verdade, quando o negócio é muito lucrativo o impacto real é que a empresa repassará o custo e no final das contas é o consumidor final que bancará a receita extra para o poder público.

Quando o mercado é concorrencial, ou seja, quando o mercado é o mais livre possível, o lucro estará sempre presente; um verdadeiro presente para os sócios. Mercado livre é bom, de verdade? É o melhor dos mercados; Mercado Livre que o diga.

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A mediocridade é uma arte

É meio estranho fazer esta afirmação de que a mediocridade é uma arte mas, às vezes me surpreendo a pensar se isto não serial efetivamente real; talvez não 100%, mas acho que muita gente considerada medíocre não se esforça para ser assim conhecido enquanto há um bom público que se esmera em ser medíocre, que prepara todo um planejamento para ser reconhecido com medíocre.

Explico: é comum em qualquer organização, setor privado, administração pública, entidade associativa, grupo de amigos ou de família etc ter alguém que se destaca basicamente por ninguém acreditar que a pessoa seria capaz de fazer alguma coisa e por isto reconhecido ou pelo menos validado como medíocre. O resultado é que esta alcunha de medíocre acaba provocando um efeito muito positivo para quem buscar ser deste jeito: é que como ninguém mais confia na pessoa e antecipadamente já decide que ela não fará nada que for solicitado, ninguém pede nada, ninguém passa nenhuma atividade e ninguém conta como uma pessoa colaborativa quando a ideia é um trabalho conjunto, uma atividade comum.

De modo hipotético e ilustrativo, é aquela pessoa que depois de uma festa ou um churrasco  não ajuda a organizar as coisas, não participa da limpeza nem se dispõe a fazer nada, apenas fica ali esperando que todo mundo faça tudo. No máximo, fica observando. E como é uma pessoa medíocre o senso comum é que não fará nada ou se fizer não completará a atividade ou fará mal feito e exigirá que alguém (re)faça tudo. Esta mediocridade não é assim tão fácil de... conquistar, mas é bem fácil de ser reconhecida. Uma arte, não?

Outro exemplo hipotético é quando o chefe passa uma atividade para alguém fazer e nada é feito, obrigando o chefe a encontrar alguém que faça o trabalho no lugar do medíocre. Como o chefe é bonzinho e acha que foi mera coincidência, passa nova atividade e o resultado é exatamente o mesmo! Mas, como o chefe é teimoso, decide tentar uma terceira vez para nova decepção. Resultado: nada mais será solicitado à pessoa que ficará sem atribuições ou apenas fazendo coisas bestas, das quais fazendo ou não, atrasando ou não, não impactará em nada na organização.

Acho tudo isto uma arte! Não é fácil ser incompetente ou medíocre em várias coisas e ao mesmo tempo. É certo que ninguém é bom, ninguém é 100% em tudo e algumas coisas realmente muita gente não conseguirá fazer mas, terá será algo que possa contribuir, alguma coisa que saiba fazer. Ninguém é medíocre 100%, nem mesmo em tempo integral. São pessoas dissimuladoras que se “especializam” na arte da mediocridade para não fazer nada e esperar que todo mundo faça tudo em seu lugar; é quase um sinônimo de preguiça misturado com um sinônimo de aproveitador.

Sempre acho que esta mediocridade deve ser “valorizada”, pois considero uma arte. Como valorizar? Dois caminhos sugeridos. O primeiro é enaltecer a pessoa em uma atividade, valorizá-la ao máximo no seu ambiente e dizer que somente ele é capaz de fazer; isto obrigará a trabalhar, o que é um grande sacrifício. E o segundo é passar uma atividade penosa ou longa – ou penosa e longa – e dar toda a corda possível indicando a essencialidade do trabalho, de vez em quando incentivá-lo para quando eventualmente conclui-lo não dar a menor atenção. Nas duas hipóteses, nenhuma maldade. Na verdade, um incentivo para mostrar que se a mediocridade é uma arte, gerenciar estas pessoas é outra arte, uma outra nobre arte. Pode até não resolver, mas neste caso o medíocre apenas assumirá aquilo que é, sem arte, apenas sua incompetência social.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Diógenes ou a lanterna

 

Diógenes é hoje um nome menos pronunciado não somente por ser  mais difícil de encontrar crianças ou jovens assim chamados como também o personagem mais conhecido, o grego, ser pouco lembrado. Diógenes foi um filósofo grego e talvez um dos com mais histórias engraçadas, algumas bem particulares e outras que até nos permitimos retirar alguma lição.

Acho que a maior associação ao nome de Diógenes era a sua lanterna (claro, não no formato de hoje, com pilhas!), mas a lamparina, como dizem alguns, que utilizava para andar nas ruas em busca do homem verdadeiro, aquele sem erros comuns, virtuoso e sem muitas vaidades. Outra história conhecida dele era com Alexandre o Grande que ao interrogá-lo teria recebido como resposta que ele estava atrapalhando, pois tapando o sol... Em tempos de hoje, se Diógenes andasse circulando pelas ruas de nossas cidades até que seria conhecido como “o cara”. Claro, um cara muito excêntrico, meio maluco com suas ideias, mas com algumas verdades que chocavam, seja por seu conteúdo seja pela forma como se expressava.

Diógenes não era muito levado a sério, diga-se de passagem. E não seria hoje também. Mas, não por várias razões como na época da Grécia Antiga, pois bastava um único motivo para ser objeto de chacota: onde já se viu sair procurando um “homem verdadeiro” (e não tem nada a ver com a lanterna)? Neste mundo cada vez mais diferente todos os dias que se reinventa com coisas novas e também com coisas antigas, como seria possível ter um “homem verdadeiro” entre nós?

Acredito sinceramente que há muitas boas pessoas, verdadeiras e honestas e capazes de fazer muitas coisas boas. Essas pessoas existem, sim. Mas, parece que por medo de ser considerado ultrapassado, antigo ou meio maluco, essas pessoas são mais tímidas, circulam menos ou pelo menos divulgam menos o que fazem. É que a moda do exibicionismo ataca cada vez mais pessoas e as normalidades são cada vez menos normais, o impensável e o imponderável podem surgir a qualquer tempo e ninguém nem mais ficar envergonhado com nada. Não é um “vale tudo” mas é um muito coisa é possível ou se você preferir, “eu não tô nem aí”.

Voltando para Diógenes, mesmo com suas loucuras, sinto falta da lanterna, de uma lanterna. Diógenes usava sua lanterna – uma lamparina – em plena luz do dia, era uma de suas loucuras que hoje também seria esquisito. Mas é que tem tanta coisa meio estranha, meio esquisita, sem falar nas pessoas com menos boa-fé do que o desejado, que acho que uma lanterna poderia nos ajudar – em plena luz do dia – a encontrar pessoas verdadeiras. E daria até para fazer um teste: se alguém aparecer com uma lanterna em pleno dia ensolarado e procurando um pessoa verdadeira e ao deparar-se com alguém que achasse tudo normal, esta não seria a pessoa procurada; mas, se encontrasse alguém que achasse meio esquisito este objetivo, teria uma chance de ser tal pessoa.

E se ela perguntasse qual seria a vantagem da existência de muitas pessoas verdadeiras nesta nossa atual sociedade, já seria um grande indício de sucesso. E talvez nem seria por causa da pergunta, mas seria até pela forma educada de fazer a pergunta e de dialogar com o outro, sem estranhamento. Às vezes tenho vontade de sair com a lanterna; ainda tenho esperança!

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Mais delegacias ou mais presídios?

A violência urbana tem seu lado sombrio e desconhecido, aquele que não aparece na internet dos influenciadores nem no noticiário. É comum escutarmos histórias de alguém que teve algum problema, um furto ou um roubo, de celular, carro, dinheiro ou na sua residência, mesmo que não tenha sido algo espetacular, “digno” de um vídeo feito por um celular ou uma das milhões de câmeras de vigilância espalhadas nas cidades; não é visto por milhares ou milhões de pessoas, mas está a assustar quem sofre com esta violência, infelizmente, tão comum.

Quando vemos na TV os crimes bárbaros que nos chocam em todos os sentidos é que fica mais aguçada a ideia de que as cidades estão se transformando em um lugar perigoso. E o que é mais grave, é que este perigo está sendo banalizado, está sem tornando algo quase comum, bem diferente de alguns anos quando as histórias que nos surpreendiam aconteciam na calada da noite, em locais chamados perigosos ou ruas e praças desertas. Agora, nem precisamos deste cenário de filme “b” policial, tudo pode acontecer à luz do dia, nos bairros ditos menos violentos, nas ruas mais movimentadas, independentemente de ter muitas câmeras por perto, e tudo isto tornando o crime um espetáculo filmado, gravado, repetido e visto por muita gente.

Infelizmente esta é uma constatação bem espalhada em vários cantos de nossa cidade, em várias cidades do Brasil e em muitos lugares deste planeta Terra. Histórias de violência não acontecem somente em favelas, como tanto ficou estigmatizada a imagem negativa destas áreas desassistidas, mas em bairros nobres, em comércios de referência e até mesmo em shoppings. E lá fora, histórias nos Estados Unidos ou na França, que enfrenta uma série de crimes violentos por causa das drogas, mostram que o problema é bem grave, mesmo.

Não tenho solução, já adianto a resposta caso alguém imagine que a crítica é fácil quando não se aponta uma solução. Mas, mesmo sem solução, tenho uma opinião. Não há como tratar a violência e o banditismo com romantização e o coitadismo e isto na mesma proporção que não se deve tratar o “bandido” ou quem cometeu um crime como a pior representação da espécie humana. Como diria o ditado, nem tampouco à terra nem tampouco ao mar. Mas, talvez, acho que precisa de medidas mais enérgicas para tentar diminuir a expansão do crime.

Um desafio imenso são as nossas prisões, verdadeiros depósitos de pessoas sem que haja uma real perspectiva de “recuperação” ou de arrependimento do crime cometido e que proporcione uma expectativa pós-condenação. Também não é a sua lotação ou excesso de pessoas que deve justificar o relaxamento de alguém em uma audiência de custódia, ou trocar a punição por uma tornozeleira eletrônica. Por isto, acho que precisamos de mais presídios mas em um modelo mais humano e com um propósito de recuperação social. Por outro lado, somente a punição não se mostra como solução para reduzir a criminalidade e dentre as possibilidades de intervenção social e econômica, a prevenção pode ser um fator inibidor. Por isto, acho que precisamos de mais delegacias para que a população sinta-se mais próxima da proteção policial e aqueles que estejam tentados em cometer algum crime possam mudar de ideia e sair deste cruel caminho.

Não sei onde está nem quem detém a solução ideal. Certamente é um conjunto de fatores que reduzirá a violência urbana, dos roubos e furtos violentos que nos chocam a cada filmagem exibida e reexibida exaustivamente; mas acho que mais presídios e mais delegacias podem ser parte desta composição de respostas.

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