segunda-feira, 4 de maio de 2026

Namur ou Elon Musk?

 

Não preciso apresentar Elon Musk, acho que todo mundo conhece mais em função de seus resultados econômicos do que seu posicionamento político: é o “cara” mais rico do mundo, com uma fortuna tão impressionante que supera qualquer imaginação na lista de compras de qualquer pessoa. Já Namur, pouca gente conhece.

Namur é uma cidade da Bélgica, de médio porte, com cerca de 500 mil habitantes (em um país com quase 12 milhões) e que fica do lado francófono. Já foi uma cidade, como toda a região, bastante rica mas ainda é um importante centro econômico da Bélgica, um pequeno país, menor do que o RN em termos de extensão.

Namur e Musk estão, um sem saber do outro, apostando em direções opostas.

De um lado Musk acabou de dizer que acha uma besteira danada a ideia de poupar pensando no futuro, nos próximos 10-20 anos e na aposentadoria. Seria algo inútil. Não sei se ele utilizou a palavra inútil, mas o sentido de sua afirmação é esta. E tem uma bela justificativa: com o avanço da IA o mundo será (em breve) muito mais eficiente e muito mais produtivo e portanto capaz de suprir várias necessidades humanas ao ponto de gerar excedentes, ou seja, não haverá mais escassez e por isto será desnecessário trabalhar tanto, tantas horas por dia, semana, mês. Simples assim. Claro, ele não explica quem controlará tudo e todos, mas deixa uma bela esperança, de que o domínio das máquinas e das IA será positivo para a Humanidade, nada de imaginar um futuro sombrio de escravidão humana, mas ao contrário, de felicidade (quase plena) ao ver que a produtividade de tudo aumentará, de produtos e de serviços, e todos terão (ou poderão) ter acesso a tudo. Encantadora, a ideia.

Já Namur, a cidade de um dos países mais bonitos do mundo, inaugurou ontem uma nova política na cidade: a partir deste maio todo primeiro domingo do mês as lojas poderão abrir! Simples assim: até o mês de abril somente o comércio essencial tinha autorização para funcionar aos domingos. Agora, não; agora caberá ao proprietário do comércio avaliar as despesas e as receitas e estimar ser vale a pena trabalhar – o patrão e as pessoas empregadas – nos próximos domingos (caso você decida passar por Namur em junho, anote na agenda, o próximo domingo de comércio aberto será no dia 7). A discussão entre os empresários é se vale a pena fazer este esforço, de trocar o não-trabalho pelo trabalho.

Namur x Musk, qual será o vencedor? De um lado o trilionário avisa que daqui alguns anos teremos fartura e o trabalho deixará de ser tão impositivo como é hoje, e do outro lado temos uma cidade querendo movimentar a economia da cidade justamente a partir do aumento do trabalho.

Talvez até, para a gente ficar em cima do muro, os dois estejam certos: ainda teremos que trabalhar agora e nos próximos anos até que a IA venha dominar muitas (muitas, mesmo) atividades humanas, substituir boa parte de nossos esforços, para que possamos trabalhar menos daqui 20 anos. Este cenário tão longe, previsto para 2046, me entristece um pouco, e por dois motivos: quando chegar lá acho que já estarei aposentado, o que me deixa na expectativa de não precisar mais trabalhar (exceto voluntariamente ou por uma boa causa), e que a IA está avançando muito lentamente neste mitológico futuro de Musk, pois por mim já poderia começar mais cedo esta previsão de bem-estar global.

Fato é que trabalhar é bom, e mesmo quando se é dispensado depois de trabalhar 28 anos em um mesmo ambiente, ainda acho que algo interessante. Na história da Humanidade o trabalho sempre foi visto como um esforço, uma penalidade, uma árdua passagem por um longo período de sacrifício até chegar à sonhada aposentadoria.

No Brasil isto não é diferente. E aqui já conhecemos bem a experiência do trabalho no final de semana, de forma até “mais aperfeiçoada”... muita gente trabalha mais de um domingo por mês. Já sabemos como é este novo modo de vida do trabalho adotado por Namur. Gostaríamos de conhecer, e o mais breve possível, o sonho de Musk! Até lá, para quem está no mercado de trabalho, para começar a semana: um boa segunda-feira.

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