quinta-feira, 23 de abril de 2026

Vamos alugando

 O IBGE divulgou dados de pesquisa referente à ocupação de imóveis no Rio Grande do Norte para avaliar quantas pessoas moram em residência própria e em residência alugada. E o número surpreende, é algo impressionante! O Estado tem cerca de 800 mil pessoas que moram “de aluguel", posicionando-o entre um dos maiores do Nordeste/Brasil nesta avaliação.

Esta estatística já é suficientemente alarmante por si só, mas ainda mais impressionante quando revela que este número é quase o dobro comparada com a pesquisa realizada à 10 anos. E o que faz, no meu entendimento, ser alarmante? Do ponto de vista social isto significa que a população está tendo mais dificuldade ou menos acesso à moradia própria, e isto apesar de todas as linhas de crédito e de todos os programas sociais que inundaram o mercado com muitas casas, conjuntos e até mesmo os criativos conceitos de bairro organizado ou cidade inteligente (que entendo tratar-se de mero apelo comercial, de marketing).

Neste levantamento de 800 mil moradores no RN pagando aluguel mensalmente também revela que mesmo as gerações mais novas que foram entrando no mercado de trabalho nos últimos dez anos, apesar do maior acesso à educação (incluindo no ensino superior) e apesar da continuidade de uma situação social em que o casal trabalha e tem renda (diferentemente de antigamente, quando uma pessoa trabalhava e a outra ficava em casa – era uma realidade social bem diferente de hoje, felizmente!) ainda não há acumulação de renda suficiente para ter a tal da casa própria, incluindo por financiamento e linhas de crédito populares ou até mesmo subsídios.

Acho esta estatística ruim do ponto de vista social. Vale lembrar que estas 800 mil pessoas representam cerca de 25% da população do RN ou em outras palavras, se considerarmos apenas as pessoas acima de 16 anos (em idade de trabalhar, estatisticamente falando), acho que chegaremos a um terço dos nossos habitantes sem a oportunidade de ter sua casa.

Por outro lado, dirão alguns, do ponto de vista econômico tem uma grande quantidade de pessoas que está tendo uma renda extra na condição de investidor: compraram um imóvel como investimento, para viver ou ter uma renda sobre o capital aplicado; e isto é bom pois significa que estas pessoas estão tendo uma maior renda. E quantas são estas pessoas recebendo renda do capital aplicado (isto é um puro conceito do capitalismo, tão odiado por alguns e tão idolatrado por outros!): são 309 mil residências alugadas em 2025 e eram apenas 167 mil dez anos antes, ou seja, no último decênio apareceram 142 mil novas casas para aluguel e podemos pensar que 142 mil pessoas no RN tiveram um (bom) aumento de renda a ponto de ter sua casa própria e poder comprar outra, para “viver” de aluguel.

Em resumo, nesta dicotomia entre o lado negativo social e o lado positivo econômico, uma das conclusões é a constatação do aumento da diferença patrimonial e de renda entres os potiguares: em dez anos 142 mil pessoas ficaram mais ricas (muito ou pouco), pois compraram novo imóvel para alugar, enquanto outras 284 mil pessoas (considerando uma média de 2 pessoas por residência) não conseguiram juntar dinheiro nem ter acesso à crédito ou subsídios governamentais para poder comprar sua casa, ainda que financiada em longos 30 anos.

Em outras palavras, em uma definição curta: há alguma desigualdade social. Mas, com ressalvas nesta desigualdade: por si só não possível dizer que ela se agravou para todos, pois temos 142 mil pessoas com nova renda (os proprietários) e talvez tenhamos (os locadores) muitas pessoas que moravam em habitações precárias e conseguiram sair de uma situação social lamentável para conseguir ter a possibilidade de morar naquilo que pode ser chamado verdadeiramente de casa ou de apartamento.

Não como ser taxativo nem extremista na crítica ou na comemoração dos números; exceto se avaliarmos que é preciso entender qual o melhor caminho para que o tal “sonho da casa própria” possa tornar-se realidade e, preferencialmente, de forma rápida, a curto prazo, sem termos que esperar a nova pesquisa do IBGE no ano de 2036.


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