A
Tribuna do Norte deste domingo traz uma reportagem consistente sobre o debate
da legislação no RN para a atração de investimentos em data centers, com a
avaliação de representantes do setor empresarial que traçam uma expectativa
extremamente promissora para o ideal apresentado: seguindo o plano projetado
pelo setor produtivo, na operação dos data centers teríamos mais de 1.300 mil
empregos diretos e ainda outros 13 mil durante o período de construção. Quase,
acredito, estaríamos no êxtase de todo projeto macroeconômico pois estaríamos
bem perto do chamado “pleno emprego” (não significa que não haverá pessoas
desempregadas, mas sim que sua taxa será bastante reduzida e que estiver em
busca de emprego não teria dificuldade em ser contratado).
Esse
ideal dos data centers, no entanto, não é para agora, imediatamente. E por
alguns motivos: um deles, e é o foco da matéria no jornal, é a questão da
regulamentação que ainda está em discussão com/no Idema para que seja aprovada
uma nova formatação da normatização de operacionalização e de licenciamento
ambiental, este último tema sempre complexo para grandes projetos; há também a
questão da captação dos investidores, pois somente a legislação existente não
garante que haverá empresas interessadas e, não podemos deixar para o final, a
questão da localização dos projetos.
A
localização parece ser, entendo, um gargalo essencial de captação do
investimento. É que data center é por definição um grande consumidor de energia
e, eventualmente, de água. Para a energia, embora o RN seja um grande produtor,
é necessário que cada data center esteja próximo à linhas de transmissão, ou
seja, não há como instalá-los em qualquer ponto geográfico em que tenha um
poste passando por perto. A água é (ou era) um grande problema, pois os
projetos iniciais exigiam um elevado consumo de água para refrigerar os
equipamentos e o seu fornecimento significa perda de água principalmente em
regiões com menor recursos hídricos.
Mas,
no mês passado a Google deu uma grande esperança para todos, em especial aqui
para nós, no Nordeste, no semiárido: a empresa anunciou, lá nos Estados Unidos
(no Texas) um projeto que pretende utilizar pouca água, implantando um outro
sistema de resfriamento (a ar) que
dispensa o uso da água. Isto é sensacional! A solução, que já se anunciava
desde o ano passado como possível, parece caminhar para um resultado concreto
em um grande projeto de uma grande empresa.
Vale
lembrar que aqui no RN a questão da água é sempre um fator sensível: nesta
semana o Governo do Estado decretou emergência em 166 municípios (apenas Natal
“escapou”) por falta ou por deficiência de reserva de água. Já pensou em
conversar sobre data center na condição de uma grande consumidora de água em um
Estado que assume oficialmente que temos pouca água? Seria um contrassenso,
claro.
A
solução para atrair data centers para o RN passa pela legislação que deve ser
discutida tecnicamente e apreciada o mais breve possível. Mas, a discussão não
pode ser apenas técnica, deve ser social e econômica. Do ponto de vista
econômico é até mais fácil, basta oferecer incentivos fiscais e assegurar que o
licenciamento será efetivado de forma eficiente (de acordo com as regras) que ficará
menos difícil encontrar investidores interessados. E do ponto de vista social,
para não afetar o consumo de água no RN, talvez as regras possam impor alguma
limitação nos projetos com resfriamento a água: captar água do mar e promover
sua dessalinização, garantir uma eventual compensação do uso da água com a
captação de novos poços ou a implantação de dessalinizadores ou ainda buscar
formas de implantar projetos com reuso de água.
No
mundo o tema data center tem interessado vários países e aqui no Brasil já
temos projetos indicados (assegurados) para o Nordeste. Mas, ainda nenhum no
RN. Pode ser um novo futuro; não acontecerá em um passe de mágica, mas o setor
produtivo tem feito sua parte e trabalhado para que tenhamos estes projetos
novos, já a partir de 2027: 1.330 empregos já estão na fila de espera!
Um comentário:
Tem dois pontos aí que a gente pode acrescentar ao debate: o primeiro é que o "grande consumo" de água de um data center é grande quando comparado com o de uma residência, mas está em linha com o de qualquer empreendimento comercial ou industrial de pequeno porte, como um pequeno centro comercial ou uma facção têxtil. Se formos comparar com qualquer coisa na agricultura, aí não tem nem graça. Qualquer sitiozinho em perímetro irrigado vai ter um consumo de água em escala parecida. A questão é, na falta, estabelecer as prioridades para obter o melhor retorno possível para a sociedade com um recurso não abundante. Segundo, os órgãos ambientais podem incentivar os datacenters de baixo consumo com uma licença expressa (fast track). A maior proprietária de datacenters do mundo, a EQIX, fez recentemente uma apresentação do seu centro mais moderno e recente em São Paulo (foi destaque em vários canais de YouTube, destaco dentre eles o Manual do Mundo) e o consumo de água pelo datacenter em si é zero, o que se gasta de água por lá é a demanda pra consumo humano de seus trabalhadores.
Postar um comentário