sábado, 4 de abril de 2026

Orla em obras

 

Algumas cidades têm o privilégio de ter uma orla urbana acessível e com praias (leia-se banho de mar e faixa de areia) agradáveis. A vantagem é dupla: o lado geralmente mais explorado no noticiário é o aspecto turístico, o “convite” permanente que a praia oferece para os turistas que chegam em busca de paisagens diferenciadas. Mas o lado local também deve ser prestigiado por seu aspecto social: quem mora nas cidades é quem deveria melhor ter a oportunidade de desfrutar das vantagens da orla.

Não se trata, certamente, de criar rivalidades entre os locais e os visitantes, seria algo muito besta e muito inútil, as praias urbanas não são exclusividades de quem mora na cidade nem de quem sai de casa para gastar dinheiro na minha cidade. Há espaço para todos e as políticas públicas devem beneficiar a todos, indistintamente.

Em Natal, para ficar no exemplo mais próximo, temos uma orla urbana privilegiada. Na verdade, diria, temos 3 orlas urbanas: aquela mais “antiga” e antigamente mais central, da praia de Areia Preta até a praia do Forte, aquela mais turisticamente conhecida, em Ponta Negra, e aquela faixa de areia que parece um território estrangeiro, a tal da via Costeira. Duas delas oferecem boa infraestrutura para turistas e moradores, com uma boa oferta de serviços e, mais importante, com acesso fácil e barato (ônibus urbano) para todo mundo; a outra, na via Costeira, como já comentei há muito tempo (e parece que nada mudou), está distante da população local e no período em que recebíamos muitos turistas estrangeiros era mais fácil encontrar passaportes do que carteiras de identidade na praia.

Nos espaços mais frequentados pela população local tenho uma sensação de que a orla está permanentemente em obra. Há um aspecto interessante, aquele de que se há obras é para poder melhorar o acesso ao público mas, não é nada interessante que os serviços demorem tanto tempo criando dificuldade de acesso, gerando algum risco de acidente e eliminando o acesso e a visualização da bela paisagem natural. Obras, reitero, são importantes mas devem ser objetivas e atrapalhar o menos possível.

Na faixa da praia urbana, na chamada praia do Meio, implantaram vários quiosques em um calçadão em um projeto de urbanização que particularmente acho que poderia ter tido outra perspectiva: apesar de oferecer os serviços à população que frequenta a praia, retirou a vista da praia, a paisagem “perdeu-se” para quem passa na rua e na calçada. É claro que temos que ter uma urbanização adequada nas faixas de praias urbanas, mas além dos serviços e comodidades oferecidos, a paisagem é um rico patrimônio que deve ser preservado.

Ali, as obras ainda continuam. Estamos apenas iniciando o quarto mês do ano, dá tempo de concluir tudo para a alta estação, mas seria ideal terminar o quanto antes para que o turista que venha passear aqui em agosto, setembro ou outubro possa voltar para casa e fazer a propaganda da praia urbanizada e de uma bela paisagem, natural e criada; e não fazer comentários sobre obras que atrapalham a circulação e a possibilidade de desfrutar da paisagem.

É curioso notar que durante muitos anos já se realizaram alguns projetos de requalificação daquele espaço entre a praia dos Artistas e a do Forte. O trânsito mudou algumas vezes, o tamanho das calçadas também, foram construídos quiosques, criaram-se praças e quadras esportivas, melhoraram o acesso ao Forte etc. Muitas mudanças, mas a ocupação habitacional (casas, prédios, hotéis etc.) continua praticamente a mesma, ou até mesmo em decadência. Uma curiosidade é que apesar de todas as mudanças e projetos o setor empresarial na “rua da praia” não mudou de forma consistente: nenhum novo hotel ou pousada com projeto impactante, nada de novos restaurantes ou bares da moda, redução das lojas de artesanato (um dos projetos, grande, está fechado há bastante tempo), nenhum lançamento imobiliário etc. Até parece que é uma área que não é de interesse dos investidores.

O que já foi um espaço nobre e privilegiado “esqueceu” de valorizar-se ao longo dos anos. Não se trata de buscar culpados, mas de buscar soluções. Enquanto a praia estiver por lá e a paisagem continuar encantadora (se você não percebeu, com licença, estou sendo irônico...) haverá esperança. Eu continuo a acreditar.


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