Algumas cidades têm o
privilégio de ter uma orla urbana acessível e com praias (leia-se banho de mar
e faixa de areia) agradáveis. A vantagem é dupla: o lado geralmente mais
explorado no noticiário é o aspecto turístico, o “convite” permanente que a
praia oferece para os turistas que chegam em busca de paisagens diferenciadas.
Mas o lado local também deve ser prestigiado por seu aspecto social: quem mora
nas cidades é quem deveria melhor ter a oportunidade de desfrutar das vantagens
da orla.
Não se trata, certamente,
de criar rivalidades entre os locais e os visitantes, seria algo muito besta e
muito inútil, as praias urbanas não são exclusividades de quem mora na cidade
nem de quem sai de casa para gastar dinheiro na minha cidade. Há espaço para todos
e as políticas públicas devem beneficiar a todos, indistintamente.
Em Natal, para ficar no
exemplo mais próximo, temos uma orla urbana privilegiada. Na verdade, diria,
temos 3 orlas urbanas: aquela mais “antiga” e antigamente mais central, da
praia de Areia Preta até a praia do Forte, aquela mais turisticamente
conhecida, em Ponta Negra, e aquela faixa de areia que parece um território
estrangeiro, a tal da via Costeira. Duas delas oferecem boa infraestrutura para
turistas e moradores, com uma boa oferta de serviços e, mais importante, com
acesso fácil e barato (ônibus urbano) para todo mundo; a outra, na via Costeira,
como já comentei há muito tempo (e parece que nada mudou), está distante da
população local e no período em que recebíamos muitos turistas estrangeiros era
mais fácil encontrar passaportes do que carteiras de identidade na praia.
Nos espaços mais
frequentados pela população local tenho uma sensação de que a orla está
permanentemente em obra. Há um aspecto interessante, aquele de que se há obras
é para poder melhorar o acesso ao público mas, não é nada interessante que os
serviços demorem tanto tempo criando dificuldade de acesso, gerando algum risco
de acidente e eliminando o acesso e a visualização da bela paisagem natural. Obras,
reitero, são importantes mas devem ser objetivas e atrapalhar o menos possível.
Na faixa da praia
urbana, na chamada praia do Meio, implantaram vários quiosques em um calçadão
em um projeto de urbanização que particularmente acho que poderia ter tido
outra perspectiva: apesar de oferecer os serviços à população que frequenta a
praia, retirou a vista da praia, a paisagem “perdeu-se” para quem passa na rua
e na calçada. É claro que temos que ter uma urbanização adequada nas faixas de
praias urbanas, mas além dos serviços e comodidades oferecidos, a paisagem é um
rico patrimônio que deve ser preservado.
Ali, as obras ainda continuam.
Estamos apenas iniciando o quarto mês do ano, dá tempo de concluir tudo para a
alta estação, mas seria ideal terminar o quanto antes para que o turista que
venha passear aqui em agosto, setembro ou outubro possa voltar para casa e
fazer a propaganda da praia urbanizada e de uma bela paisagem, natural e
criada; e não fazer comentários sobre obras que atrapalham a circulação e a
possibilidade de desfrutar da paisagem.
É curioso notar que
durante muitos anos já se realizaram alguns projetos de requalificação daquele
espaço entre a praia dos Artistas e a do Forte. O trânsito mudou algumas vezes,
o tamanho das calçadas também, foram construídos quiosques, criaram-se praças e
quadras esportivas, melhoraram o acesso ao Forte etc. Muitas mudanças, mas a
ocupação habitacional (casas, prédios, hotéis etc.) continua praticamente a
mesma, ou até mesmo em decadência. Uma curiosidade é que apesar de todas as
mudanças e projetos o setor empresarial na “rua da praia” não mudou de forma
consistente: nenhum novo hotel ou pousada com projeto impactante, nada de novos
restaurantes ou bares da moda, redução das lojas de artesanato (um dos
projetos, grande, está fechado há bastante tempo), nenhum lançamento
imobiliário etc. Até parece que é uma área que não é de interesse dos
investidores.
O que já foi um espaço
nobre e privilegiado “esqueceu” de valorizar-se ao longo dos anos. Não se trata
de buscar culpados, mas de buscar soluções. Enquanto a praia estiver por lá e a
paisagem continuar encantadora (se você não percebeu, com licença, estou sendo
irônico...) haverá esperança. Eu continuo a acreditar.
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