quinta-feira, 2 de abril de 2026

Hidrogênio. Biciletas e ônibus

 

O tal do hidrogênio continua a chamar muita atenção, aqui e lá fora. Muitas propostas, muitos projetos, muitas promessas de um lado mas também algumas incertezas, alguns recuos e algumas novidades diferentes, de outro lado.

É certo – pelo menos é o que tudo indica – que o mundo chegará ao hidrogênio com toda a força e vontade que estão prometendo, ainda que a promessa esteja demorando um pouco mais para tornar-se realidade, principalmente no Brasil. A guerra dos Estados Unidos no Irã talvez reforce ou venha a acelerar os projetos globais para diminuir não somente a dependência do petróleo (e gás) mas principalmente para diminuir a dependência de poucas fontes de fornecimento e/ou regiões de abastecimento global. E considerando que o hidrogênio, pelo menos tecnicamente, pode ser produzido em qualquer lugar, muitos países (especialmente europeus) estão de olho nesta fonte de energia para, como diria a música, “chamar de sua”.

E não se pode esquecer a movimentação gigantesca, compatível com seu porte, que a China vem fazendo. E quando a próxima economia global dominante direciona seus esforços e recursos para um lado, vale a pena ficar de olho, observar bem direitinho, e seguir os passos; geralmente no mundo dos negócios vale aquele velho chavão, “siga o líder”.

Nessas turbulências hidrogenadas, digamos, há notícias diversas para agradar e desagradar, a depender do público que alguém esteja buscando ou também a depender do discurso futurista com promessas de longo prazo e que provavelmente daqui 5-10 anos, o prazo das promessas, ninguém mais se lembrará do que foi anunciado, sob pompas e circunstâncias.

Vou citar duas notícias bastante interessantes, do mês passado, dois polos bem opostos em termos de investimentos, de estrutura produtiva e de resultados.

A primeira vem da China, da empresa Hydromotion Technology que forneceu um motor movido à hidrogênio para um caminhão (carga pesada, 49 toneladas)  com autonomia de 1.000 km; o teste foi, na verdade, de uma viagem de 2.100km com apenas uma parada para reabastecimento. Deu tudo certo!

A outra notícia vem da França, da empresa Pragma Industries que entrou em recuperação judicial depois que seus projetos de bicicletas movidas a hidrogênio não prosperou; o projeto foi iniciado em 2024 e a (pequena) empresa empregava 10 funcionários e tinha um volume de negócios de cerca de um milhão de euros por ano.

São duas histórias diferentes e dois contextos bem diferentes, é verdade, mas demonstram que o hidrogênio ainda está em fase de experimentação assim como não é a solução para tudo, pelo menos por enquanto. Como estas histórias, há exemplos positivos e negativos de sobra e todos os dias os sites especializados em economia, negócios e em hidrogênio nos contam coisas boas e outras menos boas. Apesar desta inconstância na certeza absoluta de que tudo dará certo com o hidrogênio, hoje não é possível chegar a esta conclusão, por mais que alguém queira ser otimista, muito otimista. Mas, é uma solução que será implementada a médio/longo prazo de forma global e que poderá repetir a mesma dinâmica dos carros elétricos, com picos de otimismo e fases de monotonia na expansão do mercado.

Aqui no Brasil, não faz muito tempo, a líder de uma associação de promoção do hidrogênio fez um comentário bastante lúcido em um evento realizado em Natal: de que estava esperando ainda a primeira nota fiscal de venda de hidrogênio no Brasil. Pessimismo em excesso ou realismo absoluto? Não sei, mas acredito que tenha sido a esperança/expectativa de que este produto decole aqui em escala de mercado, não apenas em testes laboratoriais ou pequenos sítios de produção em ambiente controlado e quantidades experimentais.

Acredito no hidrogênio, inclusive aqui no Brasil. Não de forma comercial em 2026 e muito provavelmente também não em 2027; é bastante provável que tenhamos mais do que exemplos de ônibus ou carros movidos à hidrogênio a curto prazo mas os desafios ainda são estruturais, comerciais e econômicos e, desta vez não será uma redução ou isenção de tributos que ativará o hidrogênio “made in RN”. Não desanimar é um propósito, ser ufanista é um pouco exagerado. Concluindo, será necessário “oxigenar” bem mais a cadeia produtiva de hidrogênio; inclusive aqui no RN.


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