domingo, 8 de janeiro de 2023

Opinião. O mundo é uma aposta

 

O mundo é um aposta, pelo menos quando vemos que este mercado cresceu de forma quase exponencial nestes últimos anos. Na Copa do Qatar vimos que algumas empresas de apostas eram fortes patrocinadores. Neste semana foi a vez do Botafogo/RJ anunciar um patrocínio de R$ 55 milhões por um período de dois anos que será bancado por uma grande empresa global de apostas esportivas; se estão decididos a gastar os R$ 55 milhões, além de outro valor necessário para divulgar a empresa, considerando os custos e as premiações, significa que o volume de jogos é algo quase assustador no Brasil e que o lucro esperado é gigantesco! 

 

A Megasena da virada mostrou isto. As primeiras propagandas, sempre impressas com antecedência pela Caixa para a decoração das casas lotéricas, mencionavam um prêmio de R$ 450 milhões. Mas, faltando ainda uma semana para o sorteio, logo este material tornou-se lixo (reciclável), pois as apostas realizadas já garantiam um prêmio mínimo de R$ 500 milhões; e como uma coisa chama a outra, o valor foi superado facilmente! Fazendo as contas, quando a Caixa começou a divulgar a Megasena da virada e o resultado final, o erro na previsão foi de cerca de 20%.

 

Este fenômeno de apostas não é novo nem é brasileiro. Durante anos, pelo menos aqui, o tema era tratado até de forma meio folclórica quando havia uma notícia de que se apostava no nome do novo Rei da Inglaterra, se seria futuro rei ou rainha etc. Parecia engraçado apostar e apostar em quase tudo. O escândalo com Paolo Rossi na Itália parecia até ter ficado para trás na manipulação dos jogos para mudar o resultado da aposta lotérica deles.

 

 

Agora, tudo – ou quase – é um “bet” da vida, para usar a expressão de língua inglesa. Foi-se o tempo – e há muito tempo! – que o Jogo do Bicho era a aposta comum e visível em todas as esquinas, hoje substituídos por outros grupos (incluindo internacionais, aqui no RN) que continuam com as microapostas, aquelas de R$ 1, 2, 3 reais que, somadas, fazem a esperança de ganhar algo para milhares de natalenses e a certeza de ganhar muito para os poucos controladores destes jogos.

 

De vez em quando o tema de apostas volta de duas formas: a liberação dos cassinos e as loterias estaduais, ambas dependem de exclusiva autorização do Governo Federal. A primeira sempre encontrará resistências públicas e críticas de associação à lavagem de dinheiro, sem esquecer os problemas sociais que provoca na população mais carente; a segunda, atentaria contra o monopólio federal.

 

Enquanto isto, com a internet, as ‘bet” encontraram formas e fórmulas de arrecadar milhões por dia de brasileiros de diferentes localidades, perfis econômicos, profissões etc. E todos com um sonho comum: ganhar uma bolada suficiente para ficar pelo menos rico mas, muitas vezes, preferencialmente milionário.

 

 

Talvez o momento seja propício para rediscutir o controle estatal dos jogos, destas apostas que não vemos e que poucos controlam o lucro. Talvez a ideia das loterias estaduais possa encontrar um maior núcleo de defesa social e parlamentar, pois precisaria haver alteração na legislação. Não se trata de incentivar os jogos, ou melhor, a jogatina – como se dizia antigamente – mas de canalizar estes recursos para situações com melhor transparência e, sobretudo, com maior aproveitamento do lucro, com controle do poder público (com uma ressalva: a destinação do lucro deveria ser exclusiva para a educação e/ou saúde).

 

Retomar, pelo menos o debate das loterias estaduais, poderia ser o momento apropriado. A discussão levanta argumentos sólidos entre aqueles que são a favor e aqueles que são contra.

 

Mas, se é para reduzir o prejuízo social e socializar todo este montante que vai diariamente para as apostas, melhor que seja para uma loteria estadual. É uma opinião.

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